Enfim, volume 57
Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
O estrondo me arrancou do sono no meio da madrugada. Saltei confusa da cama, lábios fechados pra que o coração não saltasse pra fora, e voei pro quarto da bebê Olívia, que esperneava, chorava e berrava, cheia de razão. Tirei do berço e apertei contra o peito, fazendo um “shh, shh, shh” impossível de ouvir enquanto as vidraças tremiam a poucos metros de nós e luzes desconhecidas se enfiavam pelas frestas da cortina e riscavam as paredes cor de areia. Dentro de mim, a certeza absurda de que, se abrisse a janela, daria de cara com um dragão metálico enorme1, de juntas rígidas e olhos vermelhos, uma bocarra quadrada que cuspia fogo e destruía o que aparecesse pela frente com seus incontáveis dentes pontiagudos.

Dragão não era — constatei a obviedade ao amanhecer —, mas o contêiner de lixo orgânico da Prefeitura, fera de outra classe, uma espécie diferente de arqui-inimigo, monstro feroz que há uma década me persegue e atormenta, aninhado junto à janela da minha filha, e mais recentemente deu cria, agora coladinha ao meu próprio quarto (ah, as maravilhas de um apartamento térreo de esquina). Suas armas, como diria o Perna de Peixe2, são variadas: ondas de mau cheiro frequentes; regurgitação quase diária de restos de comida; ataques ocasionais de pequenos emissários (das moscas, mosquitos e baratas aos ratos que nos expulsaram temporariamente de casa uns anos atrás); e, pra marcar território, dolorosas sessões de urros que estremecem chão e vidraça três vezes por semana, às 5h40 da manhã (sessão dupla nas quartas-feiras, quando dragão e filhote tomam seus banhos).
Eu já falei com a Prefeitura. Já pedi e supliquei. Tentei os meios-termos — que realocassem pelo menos um dos contêineres, senão os dois; que afastassem alguns metros pro lado; que revissem o horário da coleta —, mas não tive sucesso algum. Sigo espalhando iscas para insetos e roedores pelo piso, fechando os vidros quando o fedor ou a imagem da rua incomoda demais. Algumas vezes por mês ligo pro DMLU e imploro coleta extra: vira e mexe algum vizinho aproveita a calada da noite pra descartar móveis e eletrodomésticos velhos na nossa calçada. Os dragões se aconchegam no ninho e a sujeira só aumenta.

Tem sujeira por todo lado em Porto Alegre. Li dia desses que o descarte irregular de lixo só faz crescer durante a atual gestão. Crescem também as torres, construções imensas que tapam nossa vista, engolem nosso sol e martelam incessantemente em nossos ouvidos. O som nos cerca, se instala, vira quase ruído de fundo. Quando para, o silêncio relativo chega a assustar.
Não que haja muito silêncio. É alto-falante no último volume. É ônibus, é lotação, é carro, moto e patinete. Sirene e helicóptero já não quebram a monotonia.
Monotonia que também é visual. Não era quando cheguei neste endereço, doze anos atrás. Escolhi a região por ser cheia de vida e opções. Lojas bonitas, pet shop, cafés e padaria. Mas, a cada semana que passa, fecha mais um comércio de rua. Quadras e mais quadras de cortinas de ferro trancadas, paredes pichadas, calçamentos destruídos. Os casarões do bairro, nas ruas menores, também estão sumindo. Há tapumes por todo lado.
Eu penso em ir embora com muita frequência.
Enquanto não dá, invisto na parte de dentro. Uma pintura nova, um sofá mais acolhedor, um quadro na parede, uma almofada que traz boas lembranças. Comprei um difusor e finalmente comecei a acender as velas aromáticas que ganho de presente. Plantas verdes pelos cantos, pão e bolo feitos em casa. Minha amiga Camila, muito sábia, falou algo sobre criar um refúgio suave pra se esconder da dureza do lado de fora.
De resto, espero ansiosa pelo fim de semana. Não pra descansar, mas pra que a cidade descanse, pelo menos um pouquinho. As ruas esvaziam, o barulho diminui chocantemente. O lixo não some, mas tem limpeza na sexta e, com muita sorte, a coisa se mantém aceitável até segunda. Aproveito que tenho mais tempo e subo com a Violeta pras ruas residenciais, pra longe da avenida. Tem silêncio e muita flor. Nos últimos tempos, anda fazendo um pôr do sol bem bonito.
Num entardecer desses, um que pintou o céu de rosa, paramos as duas num micro bailinho de carnaval, organizado por uma escola infantil das redondezas. Crianças pequenas jogando confete e serpentina pra cima, mães, pais e professores na volta, meia dúzia de cachorros e uma banda só de sopro, tocando Anunciação. Parei pra apreciar esse outro tipo de barulho e de bagunça, tão colorida e tão feliz. Ia fechar os olhos pra curtir a música, mas reparei na casa geriátrica à minha esquerda, um casal idoso dançando abraçado num quarto do segundo andar. Deixei cair uma lagriminha, soltei o ar que nem sabia que vinha segurando. Admirei os dois descaradamente. Espero que não tenham percebido ou, se perceberam, que não tenham se incomodado. Eu estava precisando.
O que estou lendo: “Se fizeram de propósito não me impressionaram — Eu sei que a felicidade é um bem muito escasso. Devemos guardá-la sobre o peito quando nos toca por perto, encher com ela todas as algibeiras da alma, para servir de escudo quando o seu oposto acontece, por isso não me incomodavam por aí além, estava preparada.”
Lídia Jorge, Misericórdia
Fãs de Tico & Teco e/ou do Pato Donald talvez reconheçam a referência (tem o curta na Disney+)
Nesta casa somos grandes fãs de Como treinar o seu dragão





Bah, Fer, realmente não está fácil em POA, mas fico feliz que encontraste maneiras de deixar tua rotina mais leve (e perfumada com os bolinhos, amei!). Pelo meu bairro a cena não anda muito bonita também, mas sigo abraçada na esperança por dias melhores (e melhores gestores...).