Enfim, volume 64
Bom dia, pinguim
Ajeito os travesseiros e mudo de posição já ciente de que, em poucos minutos, vou mudar outra vez. A dor nas costas, brotando na linha dos ombros e subindo até a nuca, piora a cada hora que passa. Quero preparar mais uma bolsa de água quente pra aplicar por alguns minutos e então dormir, mas o Gustavo comprou um relaxante muscular pra mim e a previsão de entrega está próxima.
Pra me manter acordada e, com sorte, me distrair, ligo o Kindle. A estratégia meio que funciona: meus olhos seguem abertos e o desconforto, senão desaparece, pelo menos é colocado em segundo plano.
É que outra dor assume, em questão de meio capítulo, o lugar da dor física. Uma dor triste, regada pela chuva que despenca do lado de fora da janela. Uma dor quieta, desesperançosa, típica da melancolia que vira e mexe dá as caras nas noites de domingo.
A dor de saber que, nesta vida, pelo menos, não vou passar um inverno longo, silencioso e solitário num barquinho preso no mar congelado da Groenlândia, vendo as explosões verdes da aurora boreal pintando o céu escuro.
Ou me descobrindo debaixo de tantas estrelas, tão grandes e aparentemente tão próximas, que meu braço ameaçará se esticar pra agarrar a mais vizinha ao mastro.
Maldita Tamara Klink1.
Eu sabia da existência do Bom dia, inverno, mas nunca tinha pensado em ler até que a Anne indicou pro nosso clube do livro. Comprei digital, porque o preço do físico me afugentou, mas me arrependi logo nas primeiras páginas — não tinha me dado conta de que viria carregado de fotos e ilustrações.
Sem falar que seria legal ter o livro dentro de casa, pra Olívia espiar e, quem sabe, se inspirar, como eu fazia com um livro do Amir Klink, o pai da Tamara, que encontrei no quarto do meu pai na década de 1990.
Mesmo inspirada, nunca me passou pela cabeça navegar e, apesar de me prometer há anos que um dia vou visitar o Alasca, meu ponto mais extremo do globo foi justamente do lado oposto. Ushuaia. A pontinha de terra mais ao sul de todas, onde me roí de inveja dos passageiros que vi embarcarem no porto rumo à Antártida.
Mas fui feliz em terra firme.
Desci o Monte Olívia com a minha Olívia, na época com um ano e onze meses, pendurada no sling. Dormi numa cabana com piso deliciosamente aquecido e vista para o Canal de Beagle, aquele por onde uma vez passou o próprio Darwin. Passeei por lá também, rodeando o farol e me espantando com o barulho — e o fedor — dos lobos (ou seriam leões?) marinhos.
De dentro de um ônibus, vi uma raposa desfilando tranquila, com a caça ainda ensanguentada na boca; as árvores destruídas pelos castores importados do Canadá, cuja população, sem os devidos predadores, saiu de controle. Vi as árvores-bandeira, permanentemente inclinadas pelo vento forte. O Trem do Fim do Mundo, apitando e soltando fumaça numa manhã nublada.
Entrei num bote aberto demais pro meu gosto e levei pancadas de vento congelante, acompanhadas por respingos de água salgada, pra passar as horas mais frias da minha vida a ver pinguins numa ilha desabrigada em algum ponto do Atlântico. Temi pela integridade dos dedinhos da minha neném que, depois de vomitar nas meias oficiais e mijar nas reservas, teve que usar as botas direto sobre a pele. Me senti a mãe mais sem noção do planeta Terra e só respirei quando voltamos à cabana e a mergulhei na banheira quente.
Mas hoje me lembro — e sorrio sozinha — de cantar bom dia, pinguim, aonde vais assim, com ar apressado?2 enquanto ela ria, se retorcia contra o meu peito e, apontando pros bichinhos na margem, berrava, feliz e urgente: “Cocó! Cocó, mamain, óia o cocó!”.
Sinto saudades frequentes do Ushuaia. De nunca ter visto o sol se pôr porque, mãe exausta de criança pequena, caía no sono antes de ele se recolher, já na madrugada.
Olívia esqueceu tudo o que vimos por lá, claro. Eu tenho as fotos e vídeos. Num dos meus preferidos, ela, imitando um dinossauro, arranca olhares e risos dos outros turistas dentro do presídio virado em museu; em outro, prova sorvete pela primeira vez na vida — sabor calafate — e, muito séria, responde “au” (o jeito como dizia “sim”) quando pergunto se quer mais.
Ler a viagem da Tamara me deu uma vontade imensa de escrever3, nem que seja só pra converter em palavras as pequenas coisas vividas num outro lugar, num outro tempo. Parte dessa coisa mágica que é poder habitar, mesmo que por poucos dias, uma existência que não é a nossa.
O que estou lendo: “Acabou o estado permanente de dúvida. Não preciso justificar para mais ninguém o desejo inexplicável de estar aqui. Não preciso de mais conselhos, não tenho que tranquilizar os outros. Cheguei.”
Tamara Klink, Bom dia, inverno
Ironia, ironia. Ironia! A Tamara parece ser uma pessoa super legal, dona de um dos perfis que mais curto acompanhar no Instagram.
Por um tempo, A arca de Noé, do Vinícius de Moraes, foi top 3 do Spotify aqui em casa.
E ainda bem! Já fazia um mês que não dava as caras por aqui. Perdão, pessoas que me leem — julho não foi simples. Mas os próximos dois textos já estão rascunhados (um no papel, outro na cabeça) e pretendo voltar ao formato quinzenal 😊







Que experiência incrível essa, ainda mais com sua pequena! Adoro seus relatos de viagens, obrigada por compartilhar e nos fazer viajar junto com você :)
Ushuaia tá na minha lista (será levarei pequena Joana para conhecer os cocós?) e, agora, o livro da Tamara também. Estava com saudades de te ler por aqui, Fer! bjs!