Enfim, volume 63
Subiu a Serra
Violeta, que tanto latiu e choramingou na subida da serra há dois dias, agora ronca tranquila no banco de trás, escondida do frio pelo cobertor cinza estampado com patinhas brancas. Olívia, do lado dela, parece mergulhada nas páginas de Insurgente, mas vem à tona a cada oportunidade de discordar de mim. No banco do motorista, minha amiga Melina reclama do carro à frente, ultrapassando em local proibido, depois me pergunta se quero trocar de música. Respondo que não. Oasis combina bem com chuva.
Gosto muito do brilho que a grama e as folhas das árvores ganham enquanto chove. É um verde molhado que ladeia a estrada, enfeitado pelo pontilhado laranja das bergamotas. A água também pinta o asfalto de cinza escuro e justifica as nuvens que nos cercam, escondendo os vales lá embaixo. Diferente da sexta ensolarada que nos levou para o fim de semana das meninas na casa da Lu, o domingo transborda melancolia, uma melancolia que a chuva deixa bonita.
Eu aprecio.
Então me sinto culpada, como frequentemente me sinto, quando penso em tudo de ruim que a chuva trouxe dois anos atrás.
Aqui, não precisa de esforço para pensar na enchente de 2024. Estamos na rota secundária porque quisemos evitar as obras da principal, ainda em reconstrução após todos os deslizamentos. Algumas curvas à frente, entraremos no trecho espremido entre os morros e um rio, aquele com as muitas placas de “ponto de encontro” e “rota de fuga” que me deixam nervosa. Vamos ter que esperar nossa vez de cruzar a pontezinha temporária, estreita para mais de um carro.
O assunto vem, quase sempre vem. Ontem mesmo falamos dele na janta. Onde estávamos, o que fizemos, como nós e as pessoas ao nosso redor foram afetadas. Alguém falou da Venezuela, do horror diferente que lá estão vivendo. A cabeça se enche de imagens sofridas e eu desconfio que não vou terminar de ler a distopia climática que o clube do livro escolheu para o mês que vem.
A torre da igreja, apontando por cima do nevoeiro e da copa das árvores, me traz de volta. A gente cruza ruas desertas, admira a praça, comenta o tamanhinho da casa quadrada que abriga a Câmara de Vereadores. O laranja das bergamotas recebe a companhia das rosas de várias cores. Uma esquina depois, o armazém de 1916 recém-pintado de amarelo queimado, mais o vermelho meio bordô das portas e janelas.
Cotiporã, a joia da Serra Gaúcha, segundo a placa na entrada da cidade.
Os irmãos Gallagher se calam no rádio. A playlist, nos lembrando que está no modo aleatório, solta os primeiros acordes de Lá vem o alemão. Melina e eu sorrimos, cantamos alto junto com os Mamonas Assassinas. Olívia fecha o livro, critica a letra da música, mas se junta a nós no refrão.
O que estou lendo: “Aos vinte e quatro, eu achava que ser adulta era se virar sozinha. Achava que era engolir o choro e pagar as contas. Achava tanta coisa simplória. Não é. Ser adulto era saber das pessoas, saber cuidar das pessoas, dos seres. Ser adulta era saber chorar as coisas, saber que não se pode pagar por tudo, que às vezes não se pode pagar e ponto. Há coisas que não tem preço, outras que não estão à venda e ainda existem aquelas que não se pode ter. Eu só não queria me sentir tão desconectada.”
Natália Borges Polesso, A extinção das abelhas (a distopia em questão)
O que estou fazendo: preparando aulas, pois, na próxima quinta, estreio como professora no curso online de formação de revisores. Empolgada? Mais do que imaginei. Nervosa? Nem tanto quanto eu temia.
(Porém, toda torcida será muito bem-vinda)





