Enfim, volume 61
Sábado de sol
Tem muito verde. Foi a primeira coisa que me chamou a atenção na minha primeira vinda a São Paulo, quase vinte anos atrás: a quantidade de verde. Sentados na mesa de canto ao ar livre, dividindo pães de queijo e pain au chocolat, narinas tomadas pelo aroma do rocambole de linguiça recém-saído do forno, escutamos os passarinhos e admiramos o verde. São muitas árvores em Perdizes. Árvores altas, lindas. Mas o verde da vez é o oliva, que pinta os armários e a roupa de cama do Airbnb, os sofás da entrada do prédio, as paredes da padaria que escolhemos pro café da manhã nesse sábado de sol forte e calor.
Já o centro da cidade é marrom. Pelo menos na zona da Galeria do Rock. Eu obviamente esperava mais preto, mas o preto se confina às roupas. De resto é o marrom da arquitetura e o colorido das coisinhas inúteis que quero comprar. A gente sobe e desce, anda e para, se aproxima das varandas, vê a vista, recua rápido porque é bonito mas dá vertigem, olha disco camiseta miniatura caneca bottom ímã tênis tênis tênis disco CD fita K7 mais disco mais camiseta máquina de serigrafia fazemos sua estampa na hora pôster quadro boné cropped da Fresno, olha isso, um cropped da Fresno.
É tanta opção que a gente sai sem comprar nada.
Também não compramos nada no Mercado Municipal, embora pretendêssemos. Queríamos ver os temperos e os molhos, provar sorvete, uma fruta diferente. O problema da vez não foi o excesso de opções, mas o excesso de ofertas. A cada passo um cardápio na frente do rosto, um convite gritado no ouvido, uma amostra — não sei se de plástico ou de verdade — do melhor bolinho/sanduíche/pastel de alguma coisa do mundo. Experimentamos o de bacalhau, num canto menos caótico do segundo andar, e até que era bem bom, mas era só um pastel. Porém de bacalhau.
Desvia de moto, sobe ladeira, loja loja loja, mais uma esquina, meu deus tem um gato gigante que ronrona no átrio do Farol, não aguento mais ladeira. O Namorado foi bater cabeça no Bangers Open Air e eu fui atrás da História de São Paulo/do Brasil. O Pátio do Colégio, o Mosteiro de São Bento e a Catedral da Sé vistos no ano passado, rumei para a Casa Número Um, o Solar da Marquesa e mais uma decepção. Decepções que eu mesma arranjo porque prefiro não pesquisar nada com antecedência e deixar a vida me levar, mas realmente achei que o Solar da Marquesa teria mais de Marquesa e menos de cartazes explicando a importância da arqueologia para o estudo da civilização. Nada contra a arqueologia, muito pelo contrário, no final do ensino médio até cogitei a carreira, mas desconfio que a Fernandinha que amava O quinto dos infernos esperasse no mínimo uma projeção da Luana Piovani dançando na chuva ao som de Earth, Wind & Fire.
Ou coisa parecida.

Então eu quis uma torta. Uma dose de açúcar pra dar energia e compensar a frustração. Só que alguns estabelecimentos fechavam nos finais de semana, outros, como de hábito, o Gemini inventou, alucinação digital que me deu três ladeiras extras e nenhuma caloria. O calor subiu, as pernas cansaram, o doce não veio, e eu entrei no Museu das Favelas porque a fachada era bonita, o ingresso era gratuito e tinha ar condicionado. Pois voltaria mais vezes, mesmo se fosse quente lá dentro e tivesse que pagar. Eu amo uma mistura de novo e de velho, do clássico com o moderno, o branco do mármore e o colorido do crochê, do papel machê e das fotografias transbordantes de gente de tudo que é canto. A cada cachorro caramelo estampado na parede o sorriso cresce e eu me sinto mais brasileira.
Praça, ladeira, igreja, asfalto asfalto asfalto, obra, parque, Viaduto do Chá e ainda nada de torta. O Shopping da Cidade acena suas franquias, mas meus princípios vetam shopping em dia normal, quem dirá em dia de turismo, e eu sigo esperançosa na direção do prédio acho que Art Déco da Biblioteca Mário de Andrade. Cinza e quadradão, o edifício em si não me disse grande coisa. Mas lá dentro? Ah, lá dentro. Primeiro, que nunca vi uma biblioteca tão movimentada. Caça ao tesouro pras crianças numa sala, oficina de alguma coisa artesanal em outra, saguão absolutamente entupido pro evento de troca de livros e nada menos que duas salas de leitura lotadas de gente lendo, escrevendo, digitando, estudando e sei lá o que mais. De bônus, cachorro pretinho correndo de um lado pro outro no jardim, pulando arbusto, assustando as pombas.
Sentei longe, mas posso jurar que ele sorria.
Enfim, o doce. Café minúsculo escondido no canto do segundo andar da galeria de lojinhas autorais atrás do parque atrás da biblioteca. Uma torta de cookie. No ponto. Deliciosa.
Açúcar nas veias, pés pegando fogo, me arrasto até o Teatro Municipal pra espiar o que der do prédio antes da orquestra começar a tocar. Dourado e vermelho, não entendo como esses teatros conseguem ser tão iguais e tão diferentes. Tem piso bonito, escadaria, estátua, lustres, afrescos e cortinas. Tiro selfie, fica ruim, peço foto, fica pior, até que um casal com noção de enquadramento se compadece da turista solitária e consigo um único registro de corpo inteiro do passeio.
Muita gente faltou e eu sou promovida do meu assento com visão limitada pra uma cadeira de frente pro palco, bem no centro da galeria. Consigo ver o piano mexendo por dentro. É sopro, é corda, é tecla, é tambor, o maestro explica cada peça antes de começar, o homem do fundo bate os pratos uma vez, põe no suporte e cruza os braços, a música cresce, enche a sala, eu fecho os olhos, ora vejo as estrelas piscando no espaço escuro, ora a Branca de Neve fugindo na floresta, a capa presa nos galhos das árvores mal encaradas, ora o Tom correndo atrás do Jerry, caindo da escada, batendo em cheio na parede. Aplausos e mais aplausos, que linda a iluminação noturna, que fome de sal.
Preciso jantar.
Ginger ale caseiro, queijo canastra, molho mega apimentado. E o bolinho de arroz? Igualzinho ao que meu Vô Dario fazia quando eu era pequena. Não emocionei na primeira mordida, não. A primeira foi de susto. O inesperado de reencontrar o gosto da saudosa casa da Rua Alzira Sarcony em meio às paredes escuras, a música alta e o sotaque paulistano do Xepa, em pleno Santa Cecília. Depois fechei os olhos e sorri.
Na próxima ida a Osório, vou perguntar pra minha Vó Marlene se ela lembra a receita.
O que estou lendo: “Compreendi que meu destino pairava sobre um arrebol triste chuva solitária quando mamãe sacudindo os lençóis da minha cama arremessou Nené, minha boneca, que esfrangalhou seus encantos e eu adoeci de um tremor que demorou bastante para sarar. Cresci depois desse estrago. Algo esmigalhado dentro de mim doía. As pontas da porcelana de Nené, minha boneca, cravadas no fígado, me deram hepatite nervosa e além disso aprendi a chorar.”
As primas, Aurora Venturini — melhor leitura em um ano de excelentes leituras e direto para o top 10 da vida








Que relato delicioso! Parecia que estava ao seu lado nesse corre corre descobrindo São Paulo