Enfim, volume 60
Pedacinhos de domingo
— Faz tempo que tá no fogo?
— Faz, já devia ter começado a chiar.
— Vou mexer na coisinha, pode ser que saia vapor.
— Corajosa.
— Se der problema, tem a válvula. Se bem que ela parece meio velha.
— Essa panela deve ter uns mil anos.
— Mas é plástico. O vapor vai empurrar. Né?
***
— Tia Fê, tia Fê!
— O que foi, meu amor?
— Por que tem uma tesoura fincada na terra, no vaso de planta grandão?
— E eu que sei? Pergunta pra bisa, a casa é dela.
***
— Isso é cabelo branco?
— Ih, eu tenho há anos.
— Não pode.
— Tia, eu faço quarenta em setembro.
— Tu tá ouvindo isso? Ela tá falando que vai fazer quarenta.
— E vai. A gente tá velha.
— Deus me livre.
***
— Que pratos eu pego?
— Vamos usar o que pra servir a massa?
— Faltam três cadeiras. Alguém pega na garagem?
— Mamãe, senta aqui do meu lado.
— Tia Fê, tia Fê, eu vou comer mais rápido que todo mundo, quer ver?
— Claro que vai, tu não come nada.
— Tia Fê, tia Fê, a Olívia tá me incomodando. Não me incomoda, Olívia.
***
— A dor nas costas é antiga. Na hora de trocar a fralda, tu pegava na minha mão e dizia “mesa”. Pequenininha e já sabia que eu não podia me curvar muito.
***
— Quem mais quer café?
***
— Ô, mãe! Cadê o chocolate? Tu disse que trouxe chocolate.
— Na bolsinha azul. Vê se deixa um de pistache pra mim.
***
— Tia Fê, tia Fê! A bisa não me responde da tesoura.
— Hum... Quem sabe pergunta pra vó?
***
— Tu sabe de onde veio o pistache, né?
— Uma supersafra nos Estados Unidos, inventaram essa moda toda pra escoar a produção.
— Se bem que já tinha coisa de pistache antes. Eu sempre gostei do sorvete.
— Eu, até essa moda surgir, nunca tinha ouvido falar.
— Capaz! Tinha até nos buffets de sorvete da praia.
— Tinha nada.
— Nos mais caros tinha.
***
— Tia Fê, tia Fê! A vó falou que a bisa tá plantando pé de tesoura pra colher tesourinha, tu acredita?
Este último domingo foi dia de maratona osoriense: almoço na casa de uma das minhas avós, café da tarde na casa da outra. Teve namorado, filha, mãe, padrasto, tio, irmã, cunhado, sobrinha. Teve pai, tio e tia, primas, tia-avó. Teve cachorro (muito cachorro) e gato escondido com o rabo de fora, futebol na TV, espaguete, bolo, pão de queijo, pão de casa e pudim, falatório, risada, gritaria, latido, miado e umas pontinhas de dor de cabeça.
Um dia lindão pra quem andava com tanta saudade de casa.
O que estou lendo: “No quarto, havia duas janelas grandes, escancarei-as, apaguei as luzes. Vi que do lado de fora, de vez em quando, a luz do farol explodia na escuridão e invadia, por poucos segundos, o cômodo. Nunca se deve chegar à noite em um lugar desconhecido: tudo é indefinido, todas as coisas dão uma impressão negativa.”
Elena Ferrante, A filha perdida





Aah que delícia de texto! Me lembrou muito os fins de semana na casa da minha avó, com a família toda em volta. 💛
Plantar tesouras pra colher tesourinhas é demais! Hahaha!