Enfim, volume 56
Os estranhos são vocês
Não consegui segurar o riso quando o fisioterapeuta anunciou, ao paciente que se retorcia de dor na maca ao lado da minha, que “me agrada particularmente a reabilitação de joelho”. Em parte foi a gramática da coisa. Vocabulário, construção frasal. Em parte a seriedade no rosto e na voz, tão estranha e ao mesmo tempo tão esperada numa criatura de vinte e pouquinhos anos. Em outra parte — pelo menos pra mim que passo a maior parte dos episódios de The Pitt de olhos fechados pra evitar as nojeiras — o conceito bizarro de que alguém possa realmente gostar de algo assim.

Venho colecionando particularidades alheias desde então: o colega que se oferece pra fazer planilhas de Excel pros outros, por diversão; a amiga que jura que passaria dias inteiros montando apresentações no Canva; meu pai que ama traçar a giz moldes de papel no tecido; uma nova conhecida que assiste reviews de máquina de lavar roupa. Coleciono e julgo horrores — pois aprendi assim. “Como pode alguém gostar de um negócio desses?” “Tanta coisa mais normal pra se curtir por aí.” “Gente doida.”
A vida é minha, a régua é minha. Os estranhos são vocês.
O jogo virou dois domingos atrás quando uma das companheiras de clube do livro deixou escapar um “cruzes!” enquanto eu discursava pra toda a cafeteria sobre a beleza do manual de instruções em que estava trabalhando naquela semana. Levantei a cabeça do meu muffin de limão e me deparei com uma sequência de rostos confusos, intrigados, divertidos, desinteressados e, no caso da Marisa, indignados. Indignei-me eu — como pode alguém não gostar de um negócio desses?
Que fique bem claro, minha paixão não é o manual de instruções em si. Na vida pessoal, por assim dizer, não os suporto. É só ver uma série de instruções, por menor que seja, e sou tomada pelo pânico. Não um pânico qualquer. Pânico raivoso. A vontade é chorar, rasgar o papel em mil pedacinhos, sair correndo, devolver à loja sem nem pedir reembolso o que quer que seja que eu tenha comprado e agora preciso aprender a usar ou instalar. Pagaria alguém pra seguir instruções por mim, se pudesse.
Em resumo: temo, detesto e odeio usar manuais. O que me agrada particularmente é escrevê-los.
Trabalhar com textos técnicos, como tenho feito há incríveis dezenove anos, é coisa engraçada. Obviamente eu queria trabalhar com literatura — traduzir, revisar, editar grandes obras literárias. Quero crer que nenhuma menina adolescente se inscreve no vestibular pra Letras sonhando com o dia em que vai finalmente abrir um doc no computador e digitar “Clique em Save (Salvar) para salvar o arquivo”. Mas a vida acontece. Um manual aqui, um white paper ali, um Help Center e uma seção de FAQs acolá e de repente seu LinkedIn sai espalhando que você é uma software localization specialist e você não pode mais negar.
O caso de amor com a escrita de manuais de instruções começou cedo. Vem dos primórdios da carreira, aquele tempo em que eu não podia me dar ao luxo de ter uma especialidade porque era obrigada a ter várias (em geral dentro de um único dia). Um estudo clínico acompanhado por um contrato qualquer pela manhã, uma lista de peças de turbina eólica depois do almoço, treinamento para vendedores de joias finas e os parágrafos que me couberam de uma demonstração de resultados financeiros no fim da tarde. Uma avalanche de termos, conceitos, estilos, normas e, evidentemente, informações. Muitas, muitas informações.
Um oásis no deserto, um manual de instruções bem simples e repetitivo no meio do expediente.
Cruzes.
Pra encerrar, preciso perguntar: o que agrada vocês particularmente no trabalho que fazem?
O que estou lendo: “Ele via, porém, com desconfiança o fato de eu gostar de pensar e refletir. Como se me faltasse um impulso vital bem na flor da idade. Às vezes ele achava que eu era infeliz.”
Annie Ernaux, O lugar
O que estou fazendo: a crônica de hoje brotou logo depois da aula inaugural do Curso Online de Formação de Revisores, oferecido pela Editora Metamorfose, do qual terei a alegria de ser uma das professoras — falando, como não poderia deixar de ser, da revisão de textos técnicos e empresariais. O curso vai abordar outras áreas (inclusive a literária) e as aulas começam agora em março.







Mais perto da aposentadoria que de outra coisa, o que eu gosto do meu trabalho foi ter aprendido a gostar dele. Foi quase ontem ❤️
Lindo texto, Fernanda: por aqui a vida também aconteceu...
Parte do meu trabalho é basicamente transformar um manual de instruções em uma versão mais digerível e bonita, por isso passo boa parte do tempo lendo termos técnicos e passo a passo também hahaha minha colega (que é technical writer) e eu adoramos montar quebra-cabeças no intervalo do almoço e, juntas de outras duas amigas, já participamos do campeonato nacional sueco de quebra-cabeça (existe até o mundial, na Espanha). Passar dois dias montando quebra-cabeças com mais de cem pessoas foi divertido demais hahaha