Enfim, volume 55
Um planeta feito pra você
Ela entra na fila de pescoço duro, colada na amiga, sem uma única olhadinha pra trás. O pai já deve estar manobrando o carro, doido pra voltar pra casa, e pareceu tranquilo na hora do tchau, mas seguro-morreu-de-velho e ela que não vai dar chance pra ele mudar de ideia. Não agora.
É que chegar até ali não foi pouca coisa: suspiros e insinuações na presença da tia — “eu queria tanto ir, que legal que deve ser” —, expressão convincente de surpresa quando abriu o envelope com os ingressos — “um pra ti e um pra uma amiguinha” — na véspera do Natal, um janeiro inteiro de negociação — “Promete que não vão sair do lado do teu primo?” “Prometo.”
Vai largar do primo no segundo em que cruzarem os portões. “Não te atrasa, pirralha, ou vão voltar sozinhas.” Portão C, assim que acabar o último show. Ela vai prometer em nome das duas e vai cumprir — quer vir de novo no ano que vem, afinal.

Estreantes na SABA de Atlântida, ela e a amiga não saberão o que fazer primeiro — beber água, catar brindes, uma olhada nos palcos alternativos, uma passada nos banheiros enquanto ainda estiverem mais ou menos limpos, uma caminhada pela grama seca pra entenderem o mapa do lugar? E se forem direto pro palco principal, garantir um lugar bem na frente? Mas viram no jornal que este ano tem futebol de sabão e vai que o tempo de espera não é tão longo assim? —, muito menos como encontrarão o resto da galera no meio de tanta gente, neste tempo remoto de Nokias sem crédito e nenhum smartphone.
Mas encontrarão, e sem ter que esperar muito. Um “aqui” berrado de longe enquanto se espremem na sombra curta do quiosque de cachorro-quente, as cabeças descobertas latejando de sol. Vão formar um grupo grande, seis, sete, às vezes dez, a maioria meninas, um ou outro guri pra contar história, todos de mãos firmemente dadas pra não perderem ninguém na multidão.
O calor do dia vai dar lugar ao vento da madrugada, ar gelado grudando na pele úmida, e vão se amontoar no chão quando as pernas cansarem, disparar em bando rumo aos banheiros já embarrados quando alguma bexiga não aguentar mais, esfregar as mãos sujas nas calças e nos shorts depois de reclamarem mais uma vez do nojo que é a falta de torneiras.
Vão cantar o mais alto que puderem, vão pular abraçadas, gritar desculpas depois de pisarem nos pés de pessoas estranhas.
Vão vibrar com um primeiro beijo, testemunhar um primeiro fora, comemorar um “oi” muito esperado sem imaginarem o coração despedaçado que dali virá, vão rir até chorar quando a amiga míope — teimosamente sem óculos, “pra ficar mais bonita” — aceitar um beijão do cara errado.
E às cinco e pouco da manhã, sol apontando no horizonte, ela e a amiga vão estar plantadas em frente ao portão C, como combinado — sedentas, famintas, exaustas, suadas, fedidas, queimadas de sol — quando o primo aparecer descalço e só de cuecas, furioso demais pra explicar se perdeu as roupas e os tênis numa aposta ou num assalto.
Mas isso vai ser depois, mais de doze horas depois. Agora precisam correr: a fila chegou ao fim, o Borghettinho toca ao longe os primeiros acordes do hino do Rio Grande do Sul. O show da Acústicos e Valvulados deve estar prestes a começar.

Se temos Enfim no dia de hoje é graças à Luísa Kalil, que ontem postou uma linda homenagem aos 30 anos do Planeta Atlântida e lembrou esta escritora aqui (cansada e momentaneamente sem foco e inspiração) de um rascunho há anos abandonado. Revisitar essa época, esse evento, essa pessoa que eu fui, deixou meu dia muito mais feliz — e espero que tenha trazido boas lembranças e sensações pra vocês também 😊
Aproveitando o tom nostálgico pra fazer um merchan, minha coletânea de contos Roda-estrela transpira adolescência millennial por todos os poros. Se você curtiu este texto aqui, com certeza vai se divertir (e emocionar) com ele também!
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O que estou lendo: “E, na entrelinha de qualquer comentário feito por alguém, ou até por mim, eles enxergavam inveja e comparação. Se eu dizia, ‘uma menina foi aos castelos do Loire’, logo respondiam chateados, ‘um dia você vai até lá. Fique feliz com o que você tem’. Um sentimento de falta constante, sem fim.”
Annie Ernaux, O lugar (livro do mês do Clube da Palavra Mágica)




que lindo, amei estar neste show com vc por alguns minutos... 💕
Eeeei, como agradecer essa menção?? Felizona aqui de ter ajudado a lembrar, mas o mérito é sempre do autor (e suas vivências hehe). Adorei os Nokias sem crédito e o "aqui" berrado hahaha, sempre funciona!
Em tempo: "O lugar" me arrancou uma lágrima ao fim que até hoje não sei se me recuperei bem, é lindo!